Há sete anos, a banda islandesa Hatari levava ao palco do Eurovision aquela que seria uma das apresentações mais hostis e distintas da história do evento. Entretanto, mesmo com os looks excêntricos da moda BDSM e canção de aggrotech “Hatrið mun sigra” (em português, O Ódio Prevalecerá), os islandeses ficaram marcados pelo protesto feito ao vivo: ao receberem seus pontos, levantaram cachecóis com a bandeira e o nome da Palestina durante o festival sediado em Tel Aviv.
“Hatrið mun sigra” era uma música politizada que buscava alertar o público europeu sobre os perigos de um continente que parece refletir justamente o que vivemos agora: rachado entre crises, da guerra na Ucrânia ao perigo dos nacionalismos. É sintomático que o principal evento musical do mundo, que pretende representar a união não apenas da Europa, mas de diferentes povos em torno de algo maior, atravesse hoje um evidente clima de “fim de festa”. E a razão principal passa por um país que nem no continente fica: Israel.
Um flashback
Façamos, então, uma viagem de 2019 para 2025, a fim de explicar a nossa ausência durante o período de Eurovision deste ano – e mais precisamente para aquele 18 de maio de 2025, data da final do último festival.
A vitória da Áustria foi recebida com alegria por poucos, alívio por muitos e tristeza por nós. Afinal, o fato mais relevante da noite não foi a vitória de JJ, mas o desequilíbrio no televoto causado por Israel, para dizer o mínimo, de forma estranha. A principal notícia do dia foi como Yuval Raphael quase levou o troféu para casa com uma música amplamente ignorada pelo público durante a temporada, mas transformada em instrumento político e midiático. Sobrevivente do Nova Festival, onde ocorreu o massacre mais emblemático dos ataques de outubro de 2023, Yuval passava longe de ser uma cantora qualquer escolhida por conta de seus talentos artísticos.
Com sua popularidade global em níveis historicamente baixos por conta do regime de apartheid e do genocídio em Gaza, Israel sabe que não existe vitrine maior para propaganda internacional do que o Eurovision. Como destacou o artigo publicado nesta semana pelo The New York Times, em uma demonstração de que ainda é possível fazer jornalismo em meio ao oba-oba do evento, a EBU (European Broadcasting Union), responsável pelo festival, acreditou que a crise terminaria com o cessar-fogo de outubro. Não poderia estar mais enganada. Dentro e fora do Eurovision, Israel parece indisposto a cumprir regras.
O fato é que o país, especialmente sob o comando de Benjamin Netanyahu, demonstrou repetidamente que a paz não faz parte de seu projeto político, marcado por ações racistas e irredentistas. Para amenizar a própria imagem internacional, torna-se fundamental ocupar espaços como o Eurovision. Os israelenses talvez não saibam chutar uma bola tão bem, mas sabem cantar. São quatro títulos no festival e uma trajetória que se mistura com a própria história do evento. Ainda assim, talvez tenha chegado a hora de encerrar esse ciclo, mas a EBU parece incapaz de perceber isso. Já perdemos países relevantes com a decisão de manter o país no evento, como a Espanha e a Holanda; e os números mostram que o desinteresse do público só cresceu, em boa parte por aquele vergonhoso 18 de maio de 2025. São 70 anos de um projeto cultural e supranacional que estão em jogo por conta de um país menor do que o estado de Alagoas.
Com todas essas questões, somada a péssima qualidade da competição nesse ano (e outras decisões desnecessárias da parte de cima do evento), naturalmente chegamos a este Eurovision com menos entusiasmo para cobri-lo. Afinal, o Koli ainda é um hobby. E justamente por ser um trabalho voluntário, acaba indo para o fim da lista de prioridades em um ano complicado para toda a equipe, dividida entre estudos, trabalho e, muitas vezes, mais de um emprego.
O que nos faz retornar, ainda que tardiamente, é o amor pelo Eurovision que conhecemos e o respeito pela comunidade construída ao redor dele. Todos nós chegamos a lugares e experiências que jamais imaginaríamos sem o apoio da nossa pequena, mas barulhenta, bolha de eurofãs. Para quem escreve este texto, esta será a 11ª edição acompanhada ao vivo. Também é o quinto ano do site cobrindo o Eurovision, às vezes com credenciamento, às vezes sem. Estivemos até em Malmö (2024), na edição mais caótica da história, marcando presença em momentos que jamais serão esquecidos pela internet.
Como profetizou o Hatari em “Hatrið mun sigra”, talvez a Europa esteja desmoronando. Ainda assim, cabe a nós acompanhar também esse declínio, torcendo para que, em algum momento, a decisão certa seja tomada.
Conduta para os dias de Eurovision 2026
Como fazemos há dois anos, reforçamos nosso posicionamento contrário à participação de Israel no evento. Por reconhecermos o quanto a permanência do país no festival é nociva, não comentaremos nada além do estritamente necessário sobre a entrada, como quando repercutimos os escândalos noticiados pela imprensa. Falar normalmente sobre a música de Israel nestas circunstâncias, como se fosse qualquer outra, é colaborar com os objetivos políticos do Hasbará de Israel.
Ainda assim, nos próximos dias tentaremos manter, mesmo que de forma reduzida, iniciativas que aproximem o público brasileiro do Eurovision. Além da tradicional cobertura no X (Twitter para os antigos), vêm aí novas edições do Júri Brasileiro e da Eurorrepescagem, além das nossas lives (Spaces). Postaremos nossas agendas nas redes do Koli – fiquem atentos!
Para finalizar, mais do que nunca seguimos acreditando que a música pop global vai muito além do Eurovision. O festival continua sendo parte importante da nossa história, mas não é a única. Por isso, seguiremos produzindo conteúdos nesse espírito, começando pela Copa do Mundo.
Boa semana de Eurovision e até mais!
Editorial escrito por Matheus Rodrigues e co-assinado por Ana Raquel e Leonardo Azevedo.
Podem ter dito que há um cessar-fogo, mas em Gaza a matança e a destruição seguem. Se você puder, considere doar para os Médicos sem Fronteiras.
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